sábado, 18 de maio de 2013

CONSIDERAÇÕES SOBRE “RABISCOS POÉTICOS”



CONSIDERAÇÕES SOBRE “RABISCOS POÉTICOS”

Ellen dos Santos Oliveira


Nesse texto, pretendo conversar sobre meu singelo livro intitulado “Rabiscos Poéticos”, que teve sua primeira edição publicada pela BOOKESS Editora, em maio de 2013. Esta obra reúne algumas poesias de minha autoria que considero meus primeiros rabiscos diante do fazer literário. Não sou capaz de revelar se essas poesias foram feitas a partir de sentimentos realmente vividos por mim, ou se tem sua criação dentro dos limites do fingimento poético. No entanto, mesmo que eu pudesse revelar tal questionamento, assim não o faria, pois se o fizesse acabaria tirando essa mágica que é fazer com que o leitor tente interpretar tais poemas, limitando com isso o sentido plural dos textos poéticos. Assim, pretendo apenas colocar algumas questões curiosas que poderão suscitar no leitor o desejo de refletir sobre os poemas lidos, e também ajudá-lo em sua leitura, e impedir que sejam levantadas hipóteses equivocadas.
Primeiro, o fato de essa obra ser intitulada como “Rabiscos Poéticos”, não significa, necessariamente, dizer que os poemas contidos nela são os únicos feitos por mim até o dia em que foram publicados, embora, sejam os primeiros entre outros primeiros. Ou seja, eles foram selecionados para compor meu primeiro livro. Os outros poemas que tenho guardado serão publicados em breve, em livros que ainda estão sendo organizados de acordo com a temática.
Os poemas selecionados para o livro “Rabiscos Poéticos” são poemas que me agradam muito, e foram escritos sem intenções literárias, em momentos de inspirações poéticas, o que não impede que o leitor encontre neles alguma qualidade literária.
O poema “Rabiscos” que é o primeiro lido pelo leitor, enquanto esse folheia a obra, foi escrito no dia em que a obra seria publicada, inclusive esta já estava pronta. Recentemente, esse poema foi selecionado e será publicado pela CBJE (Câmara Brasileira de Jovens Escritores), na Antologia “Com amor & Com afeto”, com esse mesmo poema receberei um certificado de “Qualidade Literária”, pela editora CBJE. Embora não seja pintora nem desenhista profissional, há algo que me identifique com esse poema, pois desde criança gosto de rabiscar, sem muito talento, em cadernos de desenhos, imagens de paisagens e rostos de pessoas. E de repente, nesse poema, me vejo como uma pintora diante do fazer artístico, entre as turbulências da pós-modernidade e o amor. Isso pra mim é algo fantástico!
O poema “Dom” é um poema que foi escrito, mais ou menos, entre 2007 a 2009 quando ainda era aluna do Ensino Médio, no Colégio Estadual “Presidente Costa e Silva”. Por ser uma quadra, esse poema será publicado, também, em meu próximo livro “1000 QUADRAS: o povo quer poesia!”, previsto para ser publicado até o final de junho de 2013.
Os poemas “Fingindo ser poetisa” e “Fingimento” tratam sobre o fingimento no fazer poético. Os leitores de Fernando Pessoa, ao ler esses poemas, logo perceberão o diologismo entre eles e o poema “Autopsicografia” de Pessoa, o qual eu cito abaixo:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa, Autopsicografia[i])

Esse conceito de fingimento poético, iniciado com Fernando Pessoa, refere-se à capacidade que o poeta tem de fingir ser, sentir e vivenciar sentimentos e situações que não sente, mas isso não quer dizer que são peculiaridades que não existem. Ao contrário, tanto existe que o poeta, diante do fazer poético, consegue captar isso ao seu redor, no mundo em que vive, e transpõe para o poema. Mas, para isso, é preciso que o poeta reprima sua sinceridade individual e humana para alcançar a sinceridade artística. Assim, o ato de escrever poesia torna-se algo complexo e de difícil alcance. No fingimento poético, o poeta finge “tão completamente” que acaba sentindo realmente a dor, como percebemos nesse poema de Pessoa, que se trata de um ciclo de dores que se completa com a dor do leitor. Já no meu poema, “Fingimento”, percebe-se que o eu-lírico feminino quando começou a escrevê-lo não é poetisa, mas por tanto fingi, é possível que acabe se tornando, isso depende de tantas coisas, e depende principalmente das interpretações dos leitores, e se o poema conseguir atingir a dor deles. O leitor pode pensar que, com essa explicação, estou me traindo e assumindo que meus poemas são fingidos. Talvez. Deixo isso para o leitor descobrir ou decidir.
Ao falar sobre dialogismo, há de se perceber que é um recurso muito frequente em minhas produções. Talvez, pelo fato de que durante minha infância e adolescência eu escrevia muitas paródias de músicas, principalmente durante o ensino básico, quando participava de gincanas escolares. Nessa época era comum minha turma ganhar pontos com paródias feiras por mim. É possível que esse hábito de dialogar com outras produções tenha alcançado a minha escrita poética. Um exemplo é o poema “Desgosto”, que é bem notável o diálogo com a música “Carinhoso”, de Pixinguinha. Veja abaixo as duas composições:

Carinhoso[ii]
Desgosto
Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim.
Ah se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero.
E como é sincero o meu amor,
Eu sei que tu não fugirias mais de mim.
Vem, vem, vem, vem,
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus.
Vem matar essa paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz,
Bem feliz.

Meu coração,
Já sei o porquê,
Não bate mais feliz,
Quando te vê
E os meus olhos,
Que tanto sorriram
Hoje estão tristes,
Perderam o brilho
Tudo porque
Fugiste de mim

Ah! Se tu soubesses
Como dói tanto desgosto
Por ser desprezada assim
Mas simplesmente meu amor
Tu ignoras,
Finge não saber de mim
Meu coração despedaçado
E os meus olhos já cansados de te olhar
Não veem razão para sorrir
Hoje só sonham em deixar de te amar

(Pinxiguinha)
(Ellen Oliveira)


Há outros poemas em “Rabiscos Poéticos” que percebemos o dialogismo com outras obras. Como é o caso do poema “Meu Poetinha”, dedicado a Vinicius de Moraes, nesse poema o eu-lírico, Ariana, dialoga com vários poemas de Vinicius, e fala com Vinicius de tal forma que dá a entender que se trate de uma das amantes do Poetinha. Será? Só para lembrar, Ariana é uma personagem criada pelo poeta Vinicius, em seu extenso poema “Ariana, a mulher”, vale à pena conferir. Enfim, não me prolongarei mais nessa questão, deixarei que o leitor perceba outros contatos de diálogos na minha obra poética.
Ao ler alguns de meus poemas, como “Despedida”;”Ele ainda está aqui”; “Lembranças”; “Recordações”; “Monólogo” entre outros, o leitor pode imaginar que eu tenha perdido um grande amor, bem como não se perde o que nunca se teve, o eu-lírico realmente sente isso.
Um poema que gosto muito é “Eleita”. Ele foi escrito durante o primeiro período do curso de Letras da Faculdade São Luís de França, especificamente na aula de Teoria Literária ministrada pela profa. Vilma Mota Quintela. Lembro que, nessa aula, a professora solicitou aos alunos que fizessem um poema. Como ela queria avaliar se os alunos estavam compreendendo a noção e o lugar do “eu-lírico” nas produções poéticas, ela instruiu os discentes masculinos a criarem um “eu-lírico feminino” e as discentes femininas a criarem um “eu-lírico masculino”. Depois de feitos os poemas, cada um declamou o seu. Recordo que ao ser declamado meu poema foi muito aplaudido pelos colegas de classe, o que me deixou encabulada, como de costume. No entanto fiquei muito feliz. Pois esse é um poema que amo muito. Creio que muitas leitoras irão sonhar em ser essa “Eleita”, afinal, qual a mulher que não sonha em ser eleita por alguém. Confesso que quando o escrevi imaginei alguém o escrevendo pra mim. Está aí um poema que gostaria que outra pessoa tivesse feito. Pra mim, é claro.
Já que resolvi me confessar nessa conversa, há uma coisa que eu tenho a falar sobre os poemas “Você quem quis assim” e “Meu melhor tempo é agora”. Vou direto ao ponto. Esses poemas foram compostos para serem letras de músicas. Por isso que eles têm uma musicalidade maior que os outros poemas. Resolvi publicá-los no livro porque, embora letras de músicas, ele possuem uma carga poética muito grande. Há neles, uma poesia que, acredito, fará muitos leitores se identificar com as letras. Então, não se surpreendam se um dia resolver gravá-las em música.
Concluo por aqui essa conversa. Espero ter dado contribuições relevantes sobre o fazer poético, e especificamente, sobre minha escrita literária. Desejo uma boa leitura poética a todos.

NOTAS


[i] Os versos acima foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 164.

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