sexta-feira, 31 de maio de 2013

O que é mimese?



O que é mimese?
Ellen dos Santos Oliveira[1]

O conceito de mimese vem sido largamente utilizado não só pelos filósofos, mas também por seus seguidores. A origem do termo decorre desde o século IV a.c., e correspondia à “imitação”, “representação”, “indicação”, “sugestão”, “expressão”, sempre referente à ideia de fazer ou criar algo que se assemelhe a outra coisa.
O termo surgiu com Platão que tentou definir o vocábulo em seus diálogos, em “a mais completa discussão acerca da natureza da arte que recebemos do mundo antigo” porém não consegue um sentido fixo para a palavra. Aristóteles em “ A Arte Poética” irá tratar como temática principal de sua obra, e atribui a mimese dois significados: o da imitação e o da emulação. Em seu tratado sobre poesia, Aristóteles, faz uso da mimese para diferenciar a natureza das espécies da poesia e atribuir características a cada uma, e ainda trata das artes em geral, e é por isso que sua obra é considerada um tratado para os estudiosos da Arte em geral. Em “Arte Poética” o filósofo irá tratar sobre a poesia que refere-se à: Comédia e à tragédia, à pintura, à escultura, à música e à dança. A partir daí o termo passa a ser utilizado como imitação. Assim, os imitadores imitam os homens que praticam ação, imitam caracteres, sentimentos e ações. O poeta é um imitador, assim como o pintor ou qualquer outro artista que utiliza a imaginação para expressar arte. Para Aristóteles a mimese é, primeiramente, a imitação da natureza, todavia natureza é entendida como o oculto princípio da geração e da corrupção dos seres naturais, e representa a própria realidade quando se realiza. No entanto, para ele a mimese é também a própria realidade quando se torna real, ou seja, a mimese refaz o caminho da natureza para apresentar uma obra através da arte. A imitação do ser humano mostra a sua natureza intrínseca, isto é, seu caráter, suas paixões e seu comportamento (MOISÉS, 2004, p.292-294).
Desde então o termo passou a ser utilizado com um entendimento de que se a literatura imita a realidade criando um mundo paralelo, um mundo autônomo em comparação ao contexto em que a obra é concebida e/ou recebida. No entanto, o conceito de mimese foi esquecido durante o Romantismo, quando se buscava um conceito libertário de Arte e de criação estética. Foi graças aos “novos críticos” que o termo retornou ao vocabulário e continua sendo estudado pelos novos especialistas na atualidade. 
Um desses estudiosos, foi o pensador, brasileiro, Luiz Costa Lima que em 1980 participou de discussões e pesquisas filológicas que visavam compreender o conceito aristotélico. Como resultado dessa discussão e pesquisa, passou-se a entender mimese como emulação, que significa um sentido construtivo de rivalidade que induz alguém a imitar outro, seja para igualar-se ou para superá-lo. Assim, não está simplesmente imitando a realidade, mas possibilitando que alguém crie uma nova realidade própria, com os mesmos elementos da realidade a qual se imita, porém com um novo olhar, uma experiência única e nova. Costa Lima acredita que  todo fenômeno é recebido pelo agente humano conforme um conjunto de expectativas apreendido a partir da cultura a qual o agente pertence (LIMA, 1986, p.361).
Ou seja, toda ação é recebida e interpretada de acordo com um conjunto de expectativas, dependendo da cultura a qual pertence o receptor. Assim, o escritor quando cria uma obra de ficção, ele a cria com expectativas e intenções sobre o que ele deseja despertar no leitor. E o leitor já possui uma expectativa socializada culturalmente daquilo que deverá ver e entender.
Costa Lima afirma que a primeira sensação provocada pela mimese, que é a sensação de semelhança, cria correspondência com os quadros de referências e expectativas daí resultantes, e esse quadro de referências e expectativas correspondem a tudo aquilo que foi agregado e compartilhado culturalmente no contexto social do qual o indivíduo participa (LIMA, 1989, p.68). O autor diz ainda que, a “mimese ao contrário da falsa tradução, imitation, não é produto da semelhança, mas produção da diferença. Diferença, contudo, que se impõe a partir de um horizonte de semelhança” (LIMA, 1986, p.361). A diferença depende da resposta individual e criativa do receptor e criador. Podemos citar vários exemplos disso, como, romances que através de uma análise comparada percebe-se grande semelhança, podendo conduzir a pensar que uma obra imitou a outra, porém cada uma apresenta seus pontos de diferenças. Outros exemplos são as paródias, muito utilizada no Romantismo. E quando o cinema imita a literatura ele imita pela semelhança ou pelas diferenças?
Conclui-se que mimese é imitação, mas uma imitação das diferenças, e não das semelhanças. Pois uma obra nunca é igual a outra obra. Cada uma tem uma realidade própria, um novo olhar uma nova experiência, por isso cada obra é diferente, por mais que seja uma imitação.

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Roberto de Oliveira. A poética Clássica: Aristóteles, Horácio, Longuino. Trad. BRUNA, Jaime. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

LIMA, Luiz Costa. Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

_______. O Fingidor e o Censo: no Ancié Régi me, no Iluminismo e hoje. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 1988.

_______. O controle do imaginário: razão e imaginação nos tempos modernos. 2 ed. ver. ampl. Rio de Janeiro: Forence Universitária, 1989.

MOISÉS, Massaud. Mimese. In. Dicionário dos Termos Literários. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2004, p.292-294).

SOETHE, Paulo Astor. Literatura e mimese. In. Literatura Comparada. Curitiba: IESD Brasil S.A, 2009.


[1] Graduada em Letras Português e suas respectivas Literaturas pela Faculdade São Luís de França (FSLF), Pós-Graduanda em Cultura e Literatura pelo Centro Universitário Barão de Mauá (CUBM), e assistente de pesquisa do NEC -UFS.

8 comentários:

  1. A mímese no ponto de vista de platão não está clara, na verdade não está dizendo nada sobre a ideia dele de mímese. Melhore seu texto, pois não me ajudou.

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  2. Muito bom sua explanação a respeito de mimese.

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  3. Parabéns! gostei do conteúdo. Mas só não consegui ler direito com a tela no preto e branco, esse contraste não ficou muito legal. Uma critica construtiva. obrigada pela explicação. abçs.

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  4. texto muito informativo, obrigada!

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