terça-feira, 4 de junho de 2013

Qual a diferença entre "fictício" e "ficcional"?



Qual a diferença entre fictício e ficcional?

Ellen dos Santos Oliveira

Os termos fictício e ficcional são dois adjetivos derivados do substantivo ficção. Para entender o que significa esses dois termos, vamos ver o que significa a palavra ficção. Para Massaud Moisés, em seu Dicionário dos Termos Literários, ficção é sinônimo de invenção ou imaginação e resume a ideia central do conceito de Literatura, isto é, se a literatura é a escrita imaginativa, ela é ficção transmitida através da palavra escrita. Assim, qualquer obra literária, seja ela: conto, novela, romance, soneto, ode, comédia, tragédia, entre outros, constitui-se em expressão dos conteúdos de ficção. Geralmente esse vocábulo é muito utilizado na prosa, como por exemplo: prosa de ficção. (MOISÈS, 2004, p.188)
São denominados fictícios os conceitos que necessitam de um exame crítico para verificar se eles são verdadeiros, já ficcionais, correspondem aos que não tem pretensão de serem verdadeiros e apenas brincam com essa pretensão (SHALAFFER, 1990,p. 145). Ou seja, uma obra literária é considerada fictícia quando ela pode-se dizer “de mentira” e logo duvidamos de sua história, por isso é necessário uma averiguação, é preciso um conhecimento, um saber. Já uma obra ficcional é quando embora seja uma obra de ficção, ela contenha ideias verdadeiras, isto é, não é necessário nenhum trabalho analítico, investigativo ou interpretativo para saber que a obra contém elementos reais.
Vamos aos exemplos: o Romance A Hora da Estrela de Clarice Lispector retrata as condições dos imigrantes nordestinos na cidade do Rio de Janeiro. A cidade, Rio de Janeiro, retratada por Clarice embora seja uma cidade ficcional não é de mentira e por isso não é fictícia, quando lemos a obra, não duvidamos que o Rio de Janeiro realmente exista, já sabemos disso imediatamente. Já o país criado na obra Os Bruzundangas de Lima Barreto é um país fictício chamado Bruzundanga, e sabemos imediatamente que esse país não existe, não com esse nome, ele pode até ser baseado em um país que exista, como o Brasil, mas para chegar a essa conclusão é preciso um conhecimento, um estudo, uma análise.
Veja agora a explicação de Antônio Candido em sua obra A personagem de Ficção sobre fictício e ficcional.
Fictício:
Dentro dêste vasto campo das letras, as belas letras representam um setor restrito. Seu traço distintivo parece ser menos a beleza das letras do que seu caráter fictício ou imaginário.[...] fictício ou mimético que freqüentemente reflete momentos selecionados e transfigurados da realidade empírica exterior à obra, torna-se, portanto, representativo para algo além dêle, principalmente além da realidade empírica, mas imanente à obra  (CANDIDO, 1968, 9-12).

Ficcional:
A delimitação do campo da beletrística pelo caráter ficcional ou imaginário tem a vantagem de basear-se em momentos de “lógica literária” que, na maioria dos casos, podem ser verificados com certo rigor, sem que seja necessário recorrer a valorizações estéticas. Contudo o critério do caráter ficcional ou imaginário não satifaz inteiramenente o propósito de delimitar o campo da literatura no sentido restrito. A literatura de cordel tem caráter ficcional, mas não se pode dizer o mesmo dos Sermões do Padre Vieira, nem dos escritos de Pascal, nem provàvelmente dos diários de Gide ou Kafka.(CANDIDO, 1968 ,p. 09)

Conclui-se que Fictício é um termo utilizado para designar toda obra de ficção que representa além da realidade empírica, é um juízo enunciado pelo saber. Já o ficcional representa um juízo espontâneo da consciência.

REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. 2 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1968.

MOISÉS, Massaud. Ficção. In. Dicionário dos Termos Literários. 12 ed. São Paulo: Cultrix, 2004, p.188)

SCHLAFFER, Heinz. Poesie und Wissen. Frankfurt: Suhr Kamp, 1990.

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