terça-feira, 20 de abril de 2010

POESIAS DE FERNANDO PESSOA




POEMA EM LINHA RETA

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

AUTOPSICOGRAFIA

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.


Alberto Caeiro
II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


Ricardo Reis



Anjos ou Deuses



Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,

A visão perturbada de que acima

De nós e compelindo-nos

Agem outras presenças.



Como acima dos gados que há nos campos

O nosso esforço, que eles não compreendem,

Os coage e obriga

E eles não nos percebem,



Nossa vontade e o nosso pensamento

São as mãos pelas quais outros nos guiam

Para onde eles querem

E nós não desejamos.



Meu ruído de alma cala

MEU RUÍDO de alma cala.
E aperto a mão no peito,
Porque sob o efeito
Da arte que faz trejeito,
O que é de Cristo fala.
Cega, porca, lixo
Da vida que n'alma tem,
Esta criança vem.
Que Deus é que do além
Teve este mau capricho?

11 comentários:

  1. Por favor,Suzy, mais poemas de Pessoa! Pessoa Pessoa e Pessoa heterônimos!

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  2. o blog é muito educador e trás muito incentivo para todos que gosta de ler.

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  3. Fernando Pessoa é para mim o maior dos maiores, o mais criativo e multifacetal escritor de poesia que a Terra já teve conhecimento. Por falarmos a mesma língua, mais orgulho nos dá.E seguindo os seus pensamentos deixo-lhes este para que voces não desistam de sonhar.
    "Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. Se tenho de sonhar, porque não sonhar os meus próprios sonhos?" (Fernando Pessoa)

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  4. Ao falar em Fernando Pessoa deixo poema abaixo para que leiam e reflitam:
    Caminho a teu lado mudo
    Caminho a teu lado mudo
    Sentes-me, vês-me alheado…
    Perguntas: Sim… Não… Não sei…
    Tenho saudades de tudo…
    Até, porque está passado,
    Do próprio mal que passei.

    Sim, hoje é um dia feliz.
    Será, não será, por certo
    Num princípio não sei que
    Há um sentido que me diz
    Que isto — o céu longe e nós perto
    É só a sombra do que é…

    E lembro-me em meia-amargura
    Do passado, do distante, E tudo me é solidão…
    Que fui nessa morte escura?
    Quem sou neste morto instante?
    Não perguntes… Tudo é vão.

    Fernando Pessoa Poesias Inéditas

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  5. Belissimo o poema de Pessoa , muito rico , alias os poemas foram muito bem escolhidos ... gostei

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  6. Prabéns Suzy pelos poemas escolhidos.O Brasil é rico em grandes poetas.Admiro Cecília Meireles,Cassimiro de Abreu,Manoel Bandeira e outros.
    Sergipe é pequeno em extensão de terras,mas grande e rico em cultura,porém pouco divulgada.

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  7. adorei tudo... Os poemas estão show!!!
    capricharam mesmo. estou esperando os próximos!

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  8. Olá pessoal, meu nome é Jéssyca sou acadêmica do curso de Letras 1° período e estou passando para parabenizá -los pelo grande sucesso do blog que ficou maravilhoso e super interessante. A família São Luís de França está de parabéns pela sua maravilhosa equipe de docentes e eu me sinto muito feliz em fazer parte dos acadêmicos da Faculdade São Luís de França... Beijo grande.

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  9. Querida Suzy amei os poemas, confesso que antes de fazer o curso de letras não lia nada relacionado a poemas, e seria hipocrisia dizer que entendo tudo o que os poetas dizem em seus poemas. no entanto, no dia 29/04/2010, a aula da professora Vilma foi muito importante para mim, lemos um poema de Drummond e a explicação que ela deu foi demais, quando Vilma lê um poema ela nos faz viajar no tempo é como se o próprio poeta estivesse ali lendo para nós, ela dá vida ao poema e poucas pessoas conseguem fazer isso que chamamos de: arte de ensino.Parabéns Vilma e Suzy por tanta dedicação tempo e esforço. Valdilene Almeida Menezês.

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  10. O poema AUTOPSICOGRAFIA de Fernando Pessoa é muito expressivo, gosto muito das colocações que o autor faz, pois o poeta é mesmo um artista, que trabalha com a arte das palavras e transmiti atravéz da poesia um sentimento criado pelo autor e que é sentido também pelo leitor...estou ansiosa pelos próximos poemas.

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  11. Identifico-me totalmente com a ALTOPSICOGRAFIA deste poeta, eternizado por sua sensibilidade.
    Grande poeta! Parabens Suzy, obrigada por nos presentear com estas pedras preciosas!

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